Uma das coisas que eu acho mais interessantes na humanidade é a necessidade de criar ídolos para si. Desde que a sociedade humana se formou e se consolidou, há registros de líderes alçados ao posto de deuses sobre cada um de seus pares, mesmo não tendo a menor capacidade de oferecer nada além de uma simples ordem ou somente sua atenção.
Como, em nome de qualquer coisa em que o leitor acredita neste momento, pode um grupo organizado em uma estrutura complexa — que possui linguagem consolidada, tecnologias capazes de fornecer o mínimo de conforto necessário para uma vida com qualidade, estruturas seguras de habitação — se entregar nas mãos de uma única pessoa, de total e bom grado, e dizer, a plenos pulmões: “Me guie, diga o que eu devo fazer e para onde ir”?
Mas, o mais impressionante, é como isso pode se esvair em questão de tempo. Pode levar apenas alguns dias, mas, em outros casos, leva anos regados a muita decepção. Vamos pegar o caso mais recente: neste domingo, dia 29 de junho de 2025, houve uma manifestação em São Paulo, convocada por uma das figuras mais idolatradas dos últimos 10 anos — jogando por baixo.
Desde seu boom na internet, Jair Messias Bolsonaro arrebanhou multidões e mais multidões por onde passava. Era ovacionado, carregado sobre a multidão por uma turba de pessoas alucinadas, gritando “mito, mito, mito”, enquanto eram agraciadas com sua mera atenção — e nada mais que isso. Não havia dinheiro, não havia prêmio lucrativo, apenas a atenção dele, um pífio reconhecimento de sua fidelidade incontestável e devoção incondicional. Bolsonaro deu início, através de sua imagem muito bem construída pelos seus filhos Eduardo e Carlos, a um movimento que já chegou a colocar milhares de pessoas na mesma Avenida Paulista, em anos anteriores. Regado de discursos populistas de fácil assimilação pela população, tendo temas como honestidade e segurança pública como carros-chefe, esse mesmo Bolsonaro se elegeu em 2018, e carregou consigo, até 2022, uma gama de políticos agregados à sua imagem — algo equiparável ao que Lula fazia com seus pares no PT.
Porém, a conta do populismo chega. Apesar do seu carisma de “tiozão de churrasco”, que fez com que milhares de brasileiros se identificassem, o ídolo de cera já começou a derreter. Nem mesmo nomes influentes no meio cristão, como Silas Malafaia (mesmo este autor tendo sérias restrições morais a essa pessoa, é inegável sua influência em uma grande parcela da sociedade cristã protestante brasileira — não podemos ser desonestos intelectualmente), está conseguindo segurar as pontas do Sassá Mutema do Novo Milênio. A última manifestação reuniu, no máximo, míseras vinte mil pessoas.
“Ah, isso é muito, ainda mais no Rio de Janeiro em dia de jogo do Flamengo…” – você poderá dizer, caro leitor. Mas veja bem: estamos falando de uma personalidade que levou consigo, por anos, milhares e milhares de pessoas por onde passava. Não era um ato isolado de um sindicato ou grupo político inexpressivo qualquer.
Este homem recebeu, no segundo turno, mais de 50 milhões de votos em 2022. Onde ele ia, reuniam-se multidões — fosse uma motociata ou uma recepção no aeroporto. Mas como sustentar um ídolo que, na primeira oportunidade, vende aqueles que o idolatram, que o veneram, por apenas 30 moedas de prata? Não há como esquecer quando ele chamou de “um bando de maluquinhos” aqueles mesmos seguidores que acamparam por dias em postos, rodovias, portas de quartéis, com a eterna promessa de que “aguenta só mais 72 horas”.
Quantos não foram traídos e deixados de lado após o 8 de janeiro, largados à própria sorte por aquele que alçaram ao posto de “salvador”? Pois bem, tanta pancada uma hora cansa. E assim, minguante e agonizante, um movimento de culto à personalidade começa a findar, dando seus últimos suspiros, acenando para os chacais que já percebem que está na hora de começarem a negociar a divisão do que restará de um moribundo bolsonarismo. E estes chacais estão ávidos pelos espólios dessa malfadada e vencida pseudodireita, que engatinhou enquanto pôde atrás de seu ídolo de barro — até que este ídolo caiu da liteira de veludo, revestida de ouro pelos seus fiéis, e se espatifou pelas ruas da Avenida Paulista, espalhando seus cacos aos pés daqueles que agora brigarão e se mutilarão para herdar esta procissão cada vez menos povoada de crentes na falsa promessa de um ilustre e mesquinho salvador de coisa alguma.

