Guilhotina Fashion Week: Vermelho, Prada e Contradições

Esquerdismo e hipocrisia, duas palavras que, na mesma frase, acabaram, no decorrer dos anos, se tornando uma espécie de pleonasmo vicioso. Explico.
Desde que os movimentos de esquerda se institucionalizaram, tudo o que fazem é sequestrar virtudes e pautas, apropriar-se de discursos morais e se posicionar como paladinos dentro de uma sociedade quebrada, abandonada e decadente. Não é raro vermos pensadores e expoentes que orbitam esse alinhamento sociopolítico externarem todo o seu desprezo pelas mazelas que ferem a população em geral, principalmente os menos abastados e desafortunados, alçando bandeiras de justiça social, necessidade de amor ao próximo, caridade e boa-vontade entre todos. Discurso lindo, dirá você, caro leitor. São lutas e bandeiras que devem, sim, ser defendidas e levantadas em todos os setores da sociedade moderna. Afinal, tudo o que mais vemos é desigualdade, miséria, mortalidade e descaso para com os mais necessitados e humildes.

Quantos casos vemos, no dia a dia, de pessoas transitando ao lado de esgotos a céu aberto, expostas a todo tipo de perigo e doenças, violências, drogas, fome, desemprego, preconceitos…? Todos os dias, a televisão e os jornais nos bombardeiam com dados e fatos cada vez mais escabrosos, enquanto os militantes da dita esquerda tentam dar voz aos oprimidos por um sistema vil e traiçoeiro, buscando e lutando pelos direitos destes que são massacrados sob o peso de um sistema brutal chamado CAPITALISMO. Até criaram um apelido que casa muito bem com o que ele representa: CAPETALISMO.

E é com base nisso que alardeiam suas teses, fazem suas declarações, oram seus discursos aos quatro ventos, arrebanhando cada vez mais e mais incautos para se tornarem porta-bandeiras dessa digníssima luta.
Mas — e note bem este mas —, quando se sentem seguros em seus redutos, cercados por suas bolhas, não aguentam e começam a demonstrar o que são verdadeiramente. A inveja, que borbulha pelos seus poros e transborda em suas entranhas, começa a aparecer em cada gesto e palavra que exprimem. O discurso “mais amor, por favor” se transforma em um aguerrido grito de guerra uníssono: “matem aqueles que possuem aquilo que não conseguimos ter, mas queríamos muito que fosse nosso”; “pilhem tudo o que conseguirem e guerreiem como se não houvesse amanhã”; “se eu não posso ter, ninguém neste mundo tem o direito de ter também, enquanto quem tem não me der um pouco do que eu quero, sem que eu tenha que me esforçar o mesmo tanto que essa pessoa se esforçou para manter o que já conseguiu”…

Claro que existem as exceções: aqueles que acreditam legitimamente no que falam, que enxergam que a caridade e a boa-vontade do ser humano estão decaindo e que urge reavivar esse aspecto que nos torna humanos melhores — a empatia. Há aqueles que realmente são desapegados do desejo de ter em detrimento daqueles que não podem, e pregam isso com afinco e sagacidade, mostrando que dá para viver sem excessos de posses fúteis. Porém, esses que acreditam de verdade são apenas a exceção que confirma a regra — regra esta que não é nada mais, nada menos, que a cobiça pelo que o próximo chegou a possuir.

E é com base nessa inveja e busca por pertencimento a um grupo semelhante — que deseja, mas precisa sinalizar virtude — que um deles acabou se entregando demais. Demasiadamente, eu direi.
Em uma foto de uma família de milionários, o destaque foi para a bolsa que uma criança carregava e seu alto valor — que, neste texto, não vem ao caso, por ser um motivo verdadeiramente pífio para a afirmação proferida contra a imagem.

“Somente a guilhotina…” — esta foi a expressão pungente de alguém que deseja, mas não poderá possuir, independentemente do fator impeditivo. E note que não foi direcionada apenas aos adultos presentes, mas também ipsis litteris à criança presente na foto — alguém que não tem a mínima culpa dos fracassos financeiros que tal pessoa possa ter sofrido, a ponto de desejar que uma família inteira fosse guilhotinada somente porque tinha condições de proporcionar à filha uma condição melhor de vida em um país onde a maioria é pisoteada por taxas absurdas e governantes que ordenham o máximo que conseguem daqueles a quem deveriam garantir o direito básico de viver — e não somente sobreviver.

Interessante que, na mesma medida — ou pior — existem aqueles que usaram esse professor como escada para chegarem ao status de “czares dos tempos modernos”, que esbanjam milhares de reais em um sofá ou uma cama, usam e abusam do dinheiro público sofridamente fornecido por aqueles que levantam pela madrugada, tomam duas a três lotações tão apinhadas que o respirar chega a ser cansativo e pesado, que se utilizam dessa prerrogativa para manterem perto de si seus maquiadores e cabeleireiros pagos com o suor do trabalhador honesto — para depois irem discursar, a plenos pulmões, que são aqueles que se lhe opõem que lutam contra as oportunidades de um pobre mudar de vida.

Engraçado que esse professor indignado não quer guilhotinar os nobres reis, rainhas, condes, duques, príncipes e princesas que o exploram através de toda sorte de sortilégios sob a bandeira da “defesa da democracia”. Não quer guilhotinar a condessa que lotou seu gabinete de maquiadores, ou a rainha que utiliza um jato da FAB para ir ao ginecologista. Não. Ele se indigna com quem não suga o seu dinheiro, que não utiliza o cofre público para manter seu alto padrão de vida e dar uma bolsa caríssima para a filha.

As bravatas e ameaças veladas não são contra os que utilizam o pobre na escalada do poder. A indignação seletiva deve ser sempre sobre aqueles que, de fato, nada fizeram para contribuir verdadeiramente com a chaga da ferida purulenta que chicoteia a sociedade — mas nunca contra os que os usam enquanto sentam em seus caros tronos de sangue e suor popular para luxarem em suas viagens diplomáticas em nome de nada, apenas deles mesmos e dos seus egos afagados e abastados, enquanto um séquito fiel os cerca e defende — mesmo sendo açoitados dia e noite por seus ídolos de cristal arranhado.

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