Domingo, dia 21 de setembro de 2025. Uma manhã com um sol tímido que aos poucos se expôs como uma criança descoberta em um jogo de esconde-esconde.
Note, querido leitor, que este texto começa de uma forma completamente diferente de todos os textos que já propus até o momento presente. Quero que essa data se fixe na mente do caro leitor, pois este foi o dia em que todos os discursos prolixos da direita hodierna foram enterrados seguidos de um cortejo fúnebre digno de um John Kennedy.
Para que seja dado um contexto digno, é necessário que voltemos alguns dias antes deste fatídico domingo, o qual quero deixar impresso em suas memórias como o dia primordial. Aquele da queda e enterro da narrativa contra as corrupções de uma classe já desacreditada pela opinião pública em geral.
Perdoem-me a digressão, porém, para que haja uma total compreensão dos fatos, é necessário que eu retorne alguns dias, quando foi votado na Câmara dos Deputados a tão falada PEC, apelidada de PEC das Prerrogativas, mas chamada por todos de PEC da Blindagem, por ser um projeto de lei espúrio que traz certamente a segurança para aqueles que cometem qualquer tipo de crime não serem julgados por tais crimes, mas serem inocentados por seus pares.
E quando eu digo “qualquer tipo de crime”, é literalmente qualquer crime, desde crimes de mandato político a uma encomenda de assassinato, seja de um oponente público a um simples desafeto. Qualquer um dos crimes cometidos por um deputado federal, distrital ou estadual, seria passível de absolvição pelo colegiado que decidirá se aceita a denúncia e subsequente processo do acusado.
Neste dia que voltamos para entender a atual conjuntura dos fatos, foram feitos discursos acerca da necessidade de se lutar contra os excessos de um judiciário militante e inóspito quanto às demandas da dita “direita” em face dos ataques da ala à esquerda do diálogo público. Disseram aos gritos que é necessário blindar os parlamentares quanto ao que era votado ou dito em suas sessões, como se o inimigo urgente e imprescindível fosse uma perseguição ao que era expresso em plenário e não o que foi encorajado a ser feito em datas um pouco distantes e que não é o objeto deste texto.
Com base em ditas perseguições passadas, estes mesmos deputados alçaram suas vozes contra um sistema concebido como corrupto e facilitador de seus adversários, justificando ser necessário uma blindagem para que não houvesse mais chantagens ou ameaças a quem ousasse ir contra tal poder.
Mas – e note que este é um “mas” enorme como uma casa – veja que o que se abriu foi uma verdadeira caixa de Pandora em vista do inimigo que se almeja batalhar.
Caso fôssemos buscar no âmago da questão, não vemos atitude alguma para cercear tais poderes opressores que o judiciário impõe sobre o legislativo, quiçá ferindo de alguma forma as prerrogativas e independências dos poderes, uma vez que não foi tolhida nenhuma das liberdades concedidas, como as decisões monocráticas de um ministro.
Antes, todas as regalias foram mantidas, colocaram apenas um intermediário no processo, que com certeza será usado como chantageador-mor do corrupto em questão: o famoso “toma lá, dá cá”, sendo novamente colocado em prática.
E qual a justificativa? A de que uma possível “anistia” seria pautada e votada, porém só foi pautada a urgência. Mas juram de pés juntos que ela seria colocada em votação no dia seguinte, esse foi o acordo, por qual motivo não seria assim?
Bem, o bolsonarismo está em baixa. Já não há credibilidade e todos aqueles que possuem um certo renome no movimento irão fazer de tudo para colher seus louros, desde uma candidatura à presidência a uma boquinha na Câmara. Nomes são o que não faltam. Nikolas Ferreira, Tarcísio, Michele Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro…
O que não faltam são candidatos a sucessores de uma direita quebrada e inútil. Mas isso não é o ponto central deste post. O que quero discutir e propor aqui é como a dita direita entrega assim, de mão beijada, suas principais armas na mão de seus opositores, em nome de uma causa furada?!?!
O maior trunfo da recém-formada Direita Brasileira era o combate à corrupção e a não idolatria a figuras políticas. “Não temos políticos de estimação”, diriam os direitistas de 2016/2017. “Podem me chamar do que for, menos de corrupto”, diriam os políticos desta mesma época. Mas, o que vemos no que se transformou o movimento bolsonarista hoje, ao fazermos um paralelo daqueles que o ajudaram a crescer, é completamente o oposto.
E isso culminou na consequência direta que relata este texto. Uma direita castrada e que entregou nas mãos de seus inimigos o seu maior trunfo: o discurso que a mantinha ilibada até o presente momento.
Até semana passada, o único movimento que conseguia colocar milhares de pessoas na rua, em um domingo mediano, era a direita e, diga-se de passagem, o nome de Bolsonaro. Mesmo que não fossem milhões, como já foi, ainda era uma quantidade expressiva da população, enquanto os movimentos de esquerda conseguiam números pífios. Há alguma dúvida? Veja então os números das manifestações do Dia do Trabalho, mesmo tendo shows populares e apelos à classe que eles tanto aventam defender.
Nenhuma convocação da esquerda teve tanta adesão quanto a do dia 21 de setembro de 2025, um domingo que jamais conseguiram dominar em termos de força da dita direita. Todas as manifestações anteriores deram em quase nada, poucos gatos pingados em vista das manifestações convocadas por Malafaia, Nikolas, Eduardo…
Isso, caros leitores, foi um cortejo fúnebre com ares de festa. Um cortejo fúnebre para o enterro do discurso direitista de combate à corrupção e uma resposta do povo de que não aguentam mais tanta mentira, manipulação e teatro frente a problemas reais. Há insegurança pública frente ao crime organizado.
Há descrédito político, há vontade de mudança. Mas, acima de tudo, há clamor por justiça. Enquanto deputados e influenciadores entregam uma narrativa rasa, há a crescente demanda por uma resposta à pergunta “até quando?”.
Mas o que se apresenta, a resposta parca e vil, é que por uma fresta de luz vale tapar a única fonte de um raiar do sol com insulfilm, para que aqueles que refestelam no charco podre de roubalheiras possam se fartar em seus respectivos chiqueiros.
Como retomar agora, e fazer reviver, este cadáver esfarrapado, dito como “discurso da direita”, sem que se pareça com a criatura de Frankenstein? Como não parecer uma figura abjeta e herege de um extinto culto à personalidade chamado bolsonarismo, de forma que seja crível e arrebatador à população brasileira?
Eu não sei, sinceramente não sei. Mas perseguirei o sonho inefável de uma sociedade justa, através daquilo que defendo hoje e, independente do que custe a mim, prosseguirei solfejando: AVANTE, MISSÃO!

